domingo, 1 de agosto de 2010

Cora Coralina


Homenageada no 8º sarau da Casa da Ponte, Cora Coralina, é a poeta dos doces de açúcar e de palavras. É símbolo da força de vontade feminina, da lírica da vida, da poética de persistência e luta.
Uma mulher que nunca deixou de perseguir seus sonhos tendo, por isso, publicado o seu primeiro livro aos 75 anos. E em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983.

Adoro recitar sua poesia que adentra nossa alma como se de nós tivesse surgido. Essa abaixo é a minha preferida...

Todas as vidas


Vive dentro de mim
Uma cabocla velha
De mau-olhado,
Acocorada ao pé do borralho,
Olhando pra o fogo.
Benze quebranto.Bota feitiço...
Ogum. Orixá.Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
A lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
D’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
Pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
A mulhar cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
Toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
A mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
Desabusada, sem preconceitos,
De casca-grossa,
De chinelinha,
E filharada.

Vive dentro de mim
A mulher roceira.
– Enxerto da terra,
Meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
A mulher da vida.
Minha irmãzinha...
Tão desprezada,
Tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fardo.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
A vida mera das obscuras.


PS. Foto é de uma cachoeira goiana, terra da poetisa.

terça-feira, 20 de julho de 2010

SARAUCASADAPONTE JUNHO.10











Na última sexta de junho ocorreu o SARAU DA CASA DA PONTE e mais uma vez foi surpreendente. Na programação constava minha homenageada da noite ser a Cora Coralina e a noite começou com cheiro de rosas e doces da poesia goiana.
Aí Basilina Pereira nos chega com a novidade: seu mais novo livro de poesias "JANELAS" e desde então a festa começou.
Lilia Diniz, que só havia comparecido no primeiro sarau, surgiu na fumaça poética dessa noite brasiliense e encheu o ar de poesia. e (para deleite meu) endossou minha homenagem a Cora Coralina e declamou, contou causos, representou, emendou com suas poesias e deu um show memorável.
Rômulo Neves se fez presente pela primeira vez, desengavetou suas poesias, emocionou a todos com seus poemas urbanos e nos deixou com vontade de ouvir mais.
Jô Vignole fez homenagem ao mestre português Saramago e acreditem: enfim, nos mostrou um poema seu e valeu essa espera , com certeza valeu...
Juju deu o tom da comédia nos lendo uma crônica divertida de Eusanete Sant'anna.
Pra firmar a contemporaneidade da noite tivemos a Marina Mara que...que...- sem outras palavras - ...Arrasou!!!! sua poética urbana, jovial, divertida, repleta da simbologia ultratual é vibrante como seus cabelos de fogo, sua voz sensual, seu jeito gostoso de declamar...Foi o fechamento de uma noite memorável.
E para continuar a festa tivemos o aniversário da Ana Guimarães que veio brindar sua festa conosco.
Bem, depois de tudo isso terminamos a noite ouvindo de todos a frase que já se tornou tradicional:
- Foi o melhor sarau que já teve...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sarau Casa da Ponte Maio 2010














Neste 28 de maio ocorreu o 7º SARAU DA CASA DA PONTE e se para muitos o sete é número de sorte, mais uma vez confirmou-se que a sabedoria popular pode estar certa: este sarau foi incrível!!!
O poeta escolhido da noite foi Pablo Neruda, mas na verdade a grande cerimônia da noite era para o AMOR. E por isso a escolha do grande Neruda, considerado por muitos com o último dos grandes poetas românticos...e assim como dizem que Vinícius - nosso poetinha - viveu como poeta, há o mesmo correlato para Pablo Neruda que cantou e viveu para o amor.
E aí o mote da noite estava dado e não faltaram crônicas, poemas, músicas e contos que casasse com a noite de lua cheia.

De repente fomos invadidos pela sensualidade e beleza da dança flamenca sevilhana e de um trecho de Carmem. E a apresentação de Patrícia Medeiros e sua amiga deu o ritmo caliente da noite.

Eros fascinado pelo ambiente aguçou sentidos e o amor foi ouvido em várias línguas. Explico! O músico Franklin Dias nos "embebedou de amor" com canções românticas em espanhol, português, italiano, francês e, pasmem!, alemão. Inesquecível!!!

Para fechar a noite com toda magistralidade que impregnou o sarau a atriz: Lidiane Leão apresentou sua performance à Clara Nunes e aí os remelechos, o som, o calor dos caldos, do chocolate quente, do vinho, dos desejos...subiu pelas saias das mulheres e fez cócegas nas orelhas masculinas e...tudo foi festa!!!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SARAU CASA DA PONTE ABRIL.2010













Dia 28 realizou-se o 6º Sarau da Casa da Ponte e mais uma vez comprovei que nas artes não adianta direcionamento, às vezes a programação toma a cor do dia, o cheiro da noite ou o olhos de que assiste e tudo difere do planejado.
Este sarau foi assim. Programei para falar sobre o amor e Pablo Neruda, mas perdi o livro(ou o levaram?) e resolvi sentir a lua para decidir o que declamar e de repente
começa a surgir de todos os cantos poesias e textos tristes, melancólicos e introspectivos e essa foi a cor deste sarau azul, nostalgia, saudades...

Deixo um poema da Basilina Pereira, poeta que sempre está conosco e que consegue um feito que nunca antes vi. Ela escreve poesias todos os dias e nos dias doces ou coloridos faz até várias poesias por dia...
Como a noite foi contrária a tudo, o recado segue no tempo:

"TEMPO CONTRÁRIO


E nossos passos, contrafeitos,
deixam-se ir em direções opostas.

Em nossas lembranças,
chamados latentes
de um tempo contrário
onde um ímã que cintilava em nosso olhar
pulsava em forma de encanto.

Hoje, seguem lentos,
como se o peso do tempo
estivesse amarrado em nossas vestes
e não em nossos corações.

Em pequenos lapsos,
ressurgem pegadas outras
que convergem ávidas
para o toque das mãos,
mas como miragem,
o passado voa
e nós, seguimos a pé."

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sarau de 50 vozes para 50 anos de Brasília.


Hoje Brasília irá receber uma homenagem, nesses últimos dias do seu mês de aniversário. E a festa será pela boca de 50 poetas que representarão seus 50 anos. Cada poeta escolheu um ano e fiquei com 1992 o ano que cheguei aqui para ficar.

Minha homenagem poética à cidade representa bem o meu amor e encanto a esta menina-senhora. Mas também trás no seu lastro um pouco da terra natal pernambucana...

MINHA BRASÁRGADA

Nas esquinas ausentes
Procuro esta menina
De quadras pareadas
De ruas paralelas
De paralelepípedos verticais
De velocidade controlada

Mesmo sem amizade do rei
Procuro esta dama
A Brasília dos ipês
Das misturas de credos
Dos matizes cantados
Do céu mescladamente ímpar
Das tribos que se unem
Da força do concreto
Da vias arborizadas

Quero-te grandiosa,
Selvagem,
mística
Sempre assim
Repleta de possibilidades
Senhora de mim

Jeanne Maz

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brasília 50 anos


Impossível estar em Brasília e não se render à sua festa de aniversário.
Amo esta cidade que adotei como minha e na qual quero espalhar minhas cinzas. Amo cada esquina ausente, cada pássaro que me visita em casa, cada céu colorido que me é presenteado todo dia...
Mas por motivos pessoais e por ideologia política resolvi ficar ensimesmada neste dia 21 de abril.
Estava concentrada em meu atelier aproveitando o feriado para responder mensagens, organizar papéis, pôr o dia-a-dia em dias. Nem estava pensando na festa quando a minha secretária me chama:
-Olha!. A esquadrilha da fumaça está fazendo uma apresentação no céu.
Corro munida de máquina fotográfica que é minha mais leal companheira e me deparo com essa imagem no céu:

Bela, simples, poética que, assim como os momentos mais sublimes, acabam de repente dissolvido na fumaça do tempo, mas felizmente marcam a lembrança para sempre...

Sabendo-me piegas repito emocionada a frase que desfazia-se no céu:
Feliz 50 Brasília

No próximo sarau uma homenagem ao amor...


Já registrei que o inverno é minha estação favorita, mas neste ano é para o outono que faço festa. O outono juntamente com o romantismo de Chagall e a brisa das folhas caindo - após uma pausa cinza - trouxe novamente o vermelho do amor...

E a poeta aqui, no momento, incapaz de cantar este amor utiliza-se do último grande poeta romântico, Pablo Neruda, para representá-la. Aliás será este grande ícone latino o poeta homenageado no próximo Sarau da Casa da Ponte que realizar-se-á dia 30/04/10.

Neste texto escolhido o poeta se vale do pensamento que em tudo há dualidade: para existir a luz há de haver a sombra, para existir Deus há que ter o não Deus, para a fé conseqüentemente a não-fé. E o poeta nos fala o que seria um não amor, no grande amor que ele sente.
É o poema 44 do livro: Cem Sonetos de Amor:



Soneto XLIV


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Pirenópolis, cidade antiga com novas descobertas









Brasília é uma ilha dentro de Goiás e frequentemente quando mergulhamos no oceano goiano deparamo-nos com cidades místicas, encantadas, cheias de cachoeiras.

Estive numa delas na Semana Santa última, juntamente com meus filhos e mais uma vez me emocionei com Pirenópolis. A cidade barroca se faz conhecer pelas famosas pedras Pirenópolis muito utilizada nestas bandas. Merece destaque as ladeirinhas de pedra onde lojas de artesanato alternam com bares e restaurantes num colorido divertido e numa hospitalidade convidativa.
No entanto a natureza que a envolve é que é a personagem principal do passeio, são cachoeiras e parques ecológicos imperdíveis e que ainda conservam um toque selvagem.

Como já visitei a cidade mais de 10 vezes as cachoeiras mais conhecidas constituem meu roteiro frequente, mas desta vez resolvemos fazer uma trilha nova e fomos conhecer as Cachoeiras dos Dragões (antigamente conhecida como Cachoeiras da Várzea do Lobo). Essas cachoeiras ficam dentro do Mosteiro Zen, um lugar tranquilo, numa trilha de 4,5km muito gostosa de caminhar e onde vislumbrei as cachoeiras mais bonitas que já conheci.

Acho que por andar com filhos - esses seres especiais que acreditam que os pais são feitos de materiais imperecíveis e indestrutíveis - desafiei minha lógica cartesiana de cuidado pessoal. Fiz trilhas difíceis, fiquei ensopada com banhos de chuvas e cachoeiras no mínimo por 10 horas por dia e no final até boia-cross eu fiz.
Resultado: sobrevivi, não adoeci e desconfio que fiquei mais jovem alguns anos...
Disso tudo fiz até um poetrix:

Como é bom deixar-se levar

Sem grades no próprio corpo
Sem medo do sereno passado
Com o olhar confiante do novo

Encontrei Chagall no dia que seria o sarau...





A ausência no blog justifica-se com duas viagens que fiz, exposições que participei e principalmente o sempre vil metal que nos faz trabalhar demais. Retorno porém repleta de novidades na bagagem da memória, então não faltará assunto...

Em março não houve o Sarau da Casa da Ponte, pois na última semana de março estive em São Paulo, cidade que periodicamente gosto de visitar para peregrinar em museus e teatros.

Desta vez fui para participar de um congresso médico, mas fui um dia antes para desfrutar de exposições. Horas após chegar - no dia que ocorreria o sarau- fui tocada pela obra de Chagall, no Masp. O grande artista russo, que viveu 97 anos - lúcido e produzindo- e que é o símbolo do romantismo nas artes plásticas, mostrava-se em 300 obras no seu mundo mágico de gravuras.Vale ressaltar que para conseguir essas matizes nas gravuras algumas delas precisaram ter 25 pedras-matrize e serem impressas 25 vezes, num trabalho que lhe tomou 4 anos.

Ainda não lembra do artista? É aquele que pinta a tela como se fosse um mural do pensamento, todas idéias jogadas e entrelaçadas, sem preocupação com perspectiva, mas com um colorido de extasiar qualquer um. É muito comum nas suas obras um casal voando abraçado, ou pares em atitudes cúmplices...normalmente eles estão mergulhados em mundos com animais,flores, cidades. Tudo isso é oferecido conjuntamente dando sensação de festa ao onírico, ao exótico, ao distante e magistralmente ao instante...

No final da exposiçãoemocionei-me ao assistir sua última entrevista, realizada um ano antes da sua morte. O réporter lhe perguntava o que ele, um artista de quase um século e que passou por duas guerras, achava mais importante na vida. Chagall abriu o sorriso doce e com olhos de menino instantaneamente respondeu:
- O amor!!!

terça-feira, 9 de março de 2010

Mais Quintana e seus Quintanares


Mário Quintana, nascido em Alegrete (RS) em 30 de julho de 1906 é considerado o poeta das coisas simples, mas com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica.

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Trabalhou como jornalista quase que a sua vida toda. Traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, Mrs Dalloway de Virginia Woolf, além de Voltaire, Maupassant e Balzac.

Em 1940 lançou o seu primeiro livro de poesias: " A rua dos cataventos" , iniciando a sua carreira de poeta, escritor e autor infantil. Em 1966 foi publicada a sua Antologia poética, com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, e lançada para comemorar seus 60 anos, sendo por esta razão o poeta saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o poema Quintanares, de sua autoria, em homenagem ao colega gaúcho:

Pequeno trecho:

...Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!...

E o poeta como agradecimento fez este, em seu estilo, porém usando a mesma expressão:

CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO
Para Augusto Meyer

Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares...

No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.


Bem, Quintana foi indicado 3 vezes para entrar na Academia Brasileira de Letras e nunca foi aprovado (já naquela época funcionava o lema participa quem pod$, não quem tem direito...)Então, perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido:

Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(Prosa e Verso, 1978)

V